Não tem uma matéria trágica que eu fiz que eu não tenha me horrorizado

No domingo (18)…

Caixa do e-mail do trabalho lotada, alguns alertas sobre a onda de violência na cidade, com dois travestis baleados no centro de São Paulo. Fora isso (não minimizando a situação) o dia estava tranquilo. Com uma pausa para checar se eu não havia perdido nenhum e-mail importante eis que me aparece uma mensagem de uma leitora da Folha.

Ela pedia espaço no jornal para divulgar a história sobre o cachorro dela que havia desaparecido há dois meses na zona norte de São Paulo. No e-mail, ela dizia que não iria deixar de procurar o cão e por isso tinha apelado para o Facebook. Lá, ela criou uma página chamada “Procura-se Bingo”.

Esses tipos de e-mail aparecem aos montes na redação, como a própria dona do cachorro deve saber, mas mesmo assim ela não desistiu e entrou em contato com o jornal. A história também não é novidade. Muitas famílias perdem seus cachorros e criam páginas nas redes sociais para tentar encontrá-los. O caso não é forte. A história tinha tudo para não ser aceita. Foi o que eu pensei no primeiro momento.

Eu própria, como repórter, estava me autocensurando diante daquela possibilidade de pauta.

Trabalho em uma editoria em que todos os dias lidamos com o jornalismo policial, com temas como assassinatos, acidentes, assaltos, furtos, sequestros, tráfico de drogas, armas, operações policiais, prisões e todo tipo de irregularidade. E os mais experientes dizem “jornalista não pode ter estômago fraco”, ainda mais para essa editoria, mas isso não nos torna indiferentes às mazelas dos outros.

Não tem uma matéria trágica que eu fiz tanto no jornal quanto em televisão que eu não tenha me horrorizado, que eu não tenha me chocado. E é assim que tem que ser. Não quero me habituar com uma desgraça e não me sensibilizar. Isso me torna humana. Tão humana que acreditei na pauta da leitora e levei adiante.

Aquele domingo calmo para mim se transformou em uma esperança eufórica para a estudante Fabiana Cadete, dona do cachorro Bingo. E eu fiquei muito feliz com isso.

Estudante cria página na web para encontrar cão perdido

Depois da minha reportagem, a história do Bingo foi até a RedeTV! no programa “Se Liga Brasil”, da apresentadora Regina Volpato.

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