Tragédia no Sul: a cobertura jornalística no 6º maior desastre da história do Brasil

Às 7h da manhã chego na redação do jornal com um alerta da repórter da madrugada: “Teve um incêndio feio em uma casa noturna lá no RS, mas as informações ainda não batem. Os jornais locais estão falando em dezenas de mortos. Já publiquei o texto com algumas informações básicas que consegui apurar”.

Recebo a notícia com preocupação, mas sem imaginar a gravidade do que viria a ser aquele “incêndio feio”. O outro repórter chega logo em seguida e já menciona que ouviu falar sobre um incêndio numa boate, mas que ainda não tinham o número de vítimas.

A concorrência já disparava números altíssimos ainda não confirmados de pessoas mortas. A repórter da madrugada alerta: “Não vamos dar números que não correspondam com a verdade. A pior coisa que tem é ressuscitar morto”.

Apuramos na Defesa Civil, no Corpo de Bombeiros, na prefeitura, nos hospitais locais e o número de mortos chegava a números espantosos. Ligamos a TV da redação e a Globo News noticiava o incêndio, mas com imagens da CNN.

Diante do cenário que viria a ser pavoroso entro no Facebook, sempre um grande aliado, para checar as manifestações… depois de pesquisar perfis de moradores de Santa Maria (323 km de Porto Alegre), local onde aconteceu o incêndio, encontro uma página da cidade em que várias pessoas se reuniram para comentar o que estava acontecendo. Entre alguns dos comentários na rede estava o de uma menina que procurava desesperadamente pela irmã, que teria ido a tal da boate e estava desaparecida.

Entro em contato com a menina às 7h30 da manhã e, para minha surpresa, ela me responde com os contatos dela. Eufórica, disco o telefone correndo e Gabrieli Toniolo me atende. Desesperada atrás da irmã Leandra, que estaria usando uma saia verde e uma blusa branca, Gabrieli conversava comigo aos prantos. “Estou desesperada, já são 7h30 e até agora a minha irmã não voltou de lá, meu Deus!”, conta já soluçando. Inevitavelmente penso na minha irmã gêmea e as lágrimas tomam os meus olhos em questão de segundos. Tento esconder, mas não consigo. O repórter ao meu lado para de digitar a entrevista que havia feito com um bombeiro e me consola com um olhar.

Gabrieli me conta que uma amiga chamada Michele teria ido junto com a irmã dela na festa e que havia mandado uma mensagem de texto avisando que Leandra estava desaparecida. Pedi o contato da amiga e finalizei a conversa desejando toda a sorte do mundo e que ela iria encontrar a irmã logo logo. O texto saiu -> Família busca estudante desaparecida em boate no RS.

Com o telefone da amiga em mãos me senti como se estivesse com o contato mais valioso que um repórter de São Paulo, que não foi deslocado para Santa Maria, poderia ter naquele momento: o celular de uma sobrevivente do incêndio.

Na terceira ligação, Michele Pereira, 34, me atende. Tentando conter a euforia, me apresento como repórter do jornal e pergunto se ela poderia me contar detalhes sobre o incêndio. Michele está tão eufórica quanto eu, e a preocupação a mantém agitada pelo telefone.

Michele me conta que havia deixado a amiga Leandra no banheiro no momento do incêndio e que ainda estava procurando por ela. Em seguida, pergunto detalhes do que havia provocado o acidente e recebo a frase mais importante: “A banda que estava no palco começou a usar sinalizadores e, de repente, pararam o show e apontaram [o sinalizador] para cima. Aí o teto começou a pegar fogo, estava bem fraquinho, mas em questão de segundos começou a se alastrar”.

Pronto! Estava feita! Ninguém tinha essa informação preciosa às 9h da manhã vinda de uma pessoa que estava exatamente em frente ao palco e viu como tudo aconteceu. -> Vi pessoas sendo pisoteadas tentando sair, diz vítima de incêndio. Furo nos concorrentes de São Paulo.

Estrelismos a parte porque a tragédia não merece, mas a sensação do furo é inerente a qualquer repórter em uma cobertura como essa em que o telefone acaba sendo o único aliado.

Durante esse período de apurar e redigir as matérias, repórteres de todo o jornal já haviam sido contatados para virem o quanto antes para a redação, os mais experientes vieram por espontânea vontade já sabendo da importância do fato.

Todos os jornalistas ajudaram a nossa editoria (Cotidiano) a apurar a tragédia. Repórter de Mundo cuidou da repercussão internacional e o contato com os correspondentes no exterior, o da revista saopaulo ajudou procurando mais personagens e apurando as notícias da rádio gaúcha, repórteres de Poder, Mercado, Esporte e de outras editorais também participaram. Os repórteres de Cotidiano que iam chegando se dividiam na apuração: um ficou encarregado do perfil da cidade de Santa Maria, outro do perfil da banda que estava na boate e assim por diante. Uma repórter nos salvou trazendo comida.

Naquela hora atentos a rádio gaúcha e ao jornal Zero Hora, de Porto Alegre, recebemos a informação truncada de que seguranças teriam barrado a saída das pessoas que tentavam fugir do fogo e a minha chefia queria essa informação. Penso em ligar novamente para a Michele, talvez ela tivesse essa informação e não teria me passado na primeira entrevista. Ligo na casa dela e a prima atende com a notícia: “Adriana, a Michele não pode falar agora. A família encontrou o corpo da amiga dela dentro do caminhão da Brigada Militar. Ela está em estado de choque. A família está desolada”.

Paro alguns segundos, solto um profundo suspiro e agradeço a informação. Não tive coragem de perguntar mais nada. -> Família identifica corpo de estudante de radiologia de 23 anos. (texto saiu às 11h 57 e teve meio milhão de acessos)

Naquele momento todas as reportagens sobre a tragédia haviam sido feitas por São Paulo. A equipe de correspondentes de Porto Alegre foi deslocada, mas levaria pelo menos 3h para chegar ao local.

Às 13h a redação do maior jornal do país já estava completa, junto com as equipes da fotografia e da infografia. Muito antes disso, a chefia da home já estava em peso na redação “estourando” o site, ou seja, mudando radicalmente as manchetes para as chamadas da tragédia. O domingo havia se transformado em uma segunda-feira.

Os olhares dos jornalistas, fotógrafos e ilustradores do jornal foram tomados por uma sensação profunda de tristeza e horror a cada informação apurada. A reportagem foi publicada no caderno especial de “Cotidiano”, na edição nacional do dia 28, outros trechos das entrevistas saíram na edição São Paulo.  Essa foi a minha primeira cobertura de uma tragédia e, sinceramente, que tenha sido a última.

TRAGÉDIA NO SUL - FOLHA DE S.PAULO

CURIOSIDADE: O The New York Times, um dos jornais mais reconhecidos do mundo, entrou em contato com a chefia do jornal pedindo para falar comigo porque eles queriam o contato dos meus entrevistados. (Vocês dariam? Para quem não quiser se manifestar aqui aceito inboxs no facebook, como sempre!)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s