“Tentei gritar o mais alto que minha revolta exigia”

Por meio da minha amiga e jornalista Vanessa Dias Magalhães, recebi um relato de uma amiga dela que foi assediada por um motociclista no bairro Ipiranga, na zona sul de São Paulo. Ela pede para que o depoimento seja publicado neste blog. O desabafo é contra o descaso, o machismo, a impunidade.

*

Era manhã de sexta feira, dia 17 de maio de 2013, mais precisamente às nove horas e trinta e oito minutos, quando em uma rua no bairro Ipiranga, zona sul de São Paulo, fui surpreendida por um motoqueiro que me agarrou a cintura por trás e pegou na minha bunda.

Na ocasião minha reação foi de gritar o mais alto que minha revolta e indignação exigiam e o quanto minhas cordas vocais permitiam. Assustado com a minha reação, o motoqueiro avançou e perguntou: “vai encarar?”, colocando a mão sob a jaqueta, simulando ter uma arma.

Obviamente recuei, mas permaneci atenta, para ver para aonde ele iria. O agressor subiu em sua moto e consegui me atentar à placa, não tive como anotar na hora, estava compreensivelmente abalada emocionalmente e sem conseguir tomar as resoluções mais assertivas.

Decidi seguir meu caminho e tomar as atitudes necessárias depois que chegasse à casa da minha amiga e me acalmasse. Com isso perdi a certeza do número da placa, só sabia, ao certo, as três letras e os dois últimos números. Como se tratava de um motoqueiro, entendi que estava fazendo uma entrega e tomei a iniciativa de ir à empresa que fica em frente ao local do ocorrido.

Meu raciocínio era objetivo: se o motoqueiro estava fazendo uma entrega para aquela empresa, eles facilmente conseguiriam a placa da moto, assim como os dados do motoqueiro e tudo estaria resolvido. 

Para a minha surpresa, as pessoas que me atenderam não quiseram fornecer os dados e a situação foi se tornando cada vez mais constrangedora. A cada minuto saía mais um funcionário perguntando do que se tratava e novamente afirmando que nada poderiam fazer pois, PASMEM, os responsáveis em contratar o motoboy eram seus clientes e eles não queriam se indispor com eles. Ou seja, o fato de uma mulher agredida estar pedindo ajuda na porta é inferior a uma suposta indisposição com um cliente que porventura não quisesse passar o contato da empresa de motoboy a qual contratou. Eu que mantenho fortemente a crença na humanidade certamente duvidaria do caso se não fosse eu mesma a testemunha.

O que mais me impressionou foi o número de mulheres, funcionárias dessa empresa, que me atenderam sem a menor solidariedade e muito menos sem se atentarem para o fato de que o ocorrido poderia ser com qualquer mulher, inclusive com elas. A minha ânsia por justiça, se dá não somente por reparação à violência da qual sofri, mas sim como prevenção para que o mesmo não aconteça com outras mulheres e mais, para que homens, mulheres, crianças, a sociedade em geral, compreendam, definitivamente, que o fato de uma mulher ser atacada por um homem na rua não pode ser considerado normal.

Algumas pessoas dizem para “deixar pra lá” afinal, ele “só passou a mão na minha bunda”. Porém, se um indivíduo tocar no meu corpo sem meu consentimento é uma forma de estupro e passou da hora de todo mundo entender isso. Homens precisam entender que mulher nenhuma é propriedade deles e nada justifica uma agressão.

Semanas antes do acontecido comigo, uma mulher foi barbaramente estuprada por um motoqueiro em uma praça no quarteirão de baixo de onde fui atacada. Obviamente não podemos afirmar que se trata do mesmo motoqueiro. O que sabemos é que o homem que estuprou a menina está solto e o que me atacou também. 

Mulheres precisam compreender que são livres para ir e vir e se sentirem seguras para isso e que qualquer ato contra o próprio corpo, cometido por quem quer que seja, deve ser denunciado.

Saí da empresa absolutamente entristecida com a falta de solidariedade das outras mulheres e ao mesmo tempo indignada com a ignorância das mesmas, por não perceberem que a vítima não era somente eu, mas todas nós, mulheres, somos igualmente vítimas dessa violência. Concretamente aconteceu comigo, porém, está sujeito a acontecer com qualquer outra, já que trata-se de um desconhecido que julgou ter o direito de me agarrar à força.

Segui para a delegacia de polícia, pois lá também se encontra a delegacia da mulher mais próxima do local. Lá, fui informada que como se tratava de uma agressão por um desconhecido o crime não deveria ser registrado na delegacia da mulher e sim na delegacia comum. Fiz o boletim de ocorrência tendo que respirar profundamente várias vezes para manter a serenidade frente ao descaso indisfarçável do escrivão.

Compreensivelmente estava nervosa e com medo de que o agressor ou mesmo alguém da empresa que se recusou a me ajudar, pudesse acessar meus dados e a violência contra mim tomar proporções maiores, sendo assim, perguntei se meus dados seriam mantidos em sigilo. O escrivão, ironicamente, disse que “claro que não, vamos expor seus dados para São Paulo inteira”.

Como discutir com quem quer que seja não é a melhor forma de se resolver um problema, resolvi manter a serenidade e seguir até o fim. Com o boletim de ocorrência feito, aguardo a ação da polícia para que averiguem com a empresa os dados do motoqueiro, assim como as imagens da câmera de segurança e que, a partir daí, possamos contar com menos um agressor nas ruas de São Paulo e que esse caso reverbere positivamente a fim de trazer compreensão a todos os envolvidos para que saibam do que se trata uma agressão à mulher e como lidar caso isso ocorra.

Sabemos que a violência contra a mulher é consequência de milhares de anos de dominação masculina e que o machismo é um câncer ainda longe de ser completamente curado.

A ideia de que a mulher é propriedade do homem faz com que doentes nos ataquem nas ruas. No entanto, tão grave quanto, faz com que o senso comum não veja problema nisso. Em casos mais graves, de estupros traumáticos, faz com que se coloque a culpa na vítima: “com essa roupa, nesse lugar, com esse comportamento…”.

Lições de consciência, humanidade e solidariedade ao próximo serão, também, sempre bem vindas.

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