Jornalista de economia por um mês e 30 furos

“Os jornalistas precisam ser flexíveis”, disse Pete Clifton, diretor de jornalismo multimídia da emissora BBC em Londres, quando esteve no Brasil em 2008.

Na época, em entrevista ao Portal Imprensa ele afirmou: “Os jovens jornalistas precisam possuir diferentes habilidades e frequentar todos os lugares que puder, aprender todas as coisas que conseguir e estudar o quanto for possível”.

Recentemente pude sentir na prática os apontamentos de Clifton.

Fui escalada para trabalhar uma temporada na cobertura de economia (macroeconomia, negócios e vida empresarial) na coluna “Mercado Aberto”, da Folha. É a tradicional página 2 do caderno “Mercado”.

Acostumada com cobertura de cidades e cultura, fui pega de surpresa. Veio o nervosismo pelo desconhecido, e a excitação pelo desafio. Um editor me aconselhou: “Entre de cabeça (…) Você é nova, ainda tem muitas coisas para provar, aprender. Se dê essa chance”.

Mercado Aberto - JPG

EXPERIÊNCIA

A coluna, que só não é publicada de sábado, traz informações sobre grandes investimentos, dados da iniciativa privada (empresas particulares), pautas do setor público (governos, empresas estatais, órgãos públicos), além de pesquisas das associações e setores que movimentam a economia.

Também são importantes os assuntos ligados à vida do consumidor, como aqueles que influenciam diretamente os hábitos de compra e venda.

São muitas possibilidades de pauta para os três repórteres que fecham a coluna, ao lado da colunista, se não fosse um detalhe complicador: todas as informações tem que ser exclusivas (furos, como dizemos no jornalismo). Esse é o grande trunfo da coluna e que a torna tão poderosa no jornalismo econômico.

Durante um mês consegui ao menos 30 furos! Praticamente um furo por dia.

O fato da coluna ter grande repercussão ajuda, mas o repórter tem que saber ir além do release. É aí que os furos aparecem. Apurar, esmiuçar, questionar e cobrar números que nunca foram divulgados pelos setores podem resultar em pautas inéditas.

De um porto pesqueiro parado há três anos em Rondônia –e que foi repassado ao governo do Estado pela União– ao número de fraudes contra os consumidores chegando a marca de 1 milhão.

Do Brasil se tornando o 6º maior mercado do mundo em número de assinantes de TV paga, ao aumento em 10% do deficit da balança comercial dos produtos do setor eletroeletrônico.

Dos hotéis brasileiros registrando queda de ocupação por conta do fraco desempenho econômico, a um abre (notícia mais importante da página) repercutindo o PAC das cidades históricas, programa do governo federal que investirá R$ 1,6 bilhão na restauração de prédios e monumentos do país até 2015. Da entrevista de um secretário de Estado, a de CEO’s de grandes companhias.

As dificuldades com o economês –“private equity” é uma que nunca mais esquecerei– e com temas complexos de determinados setores às vezes me deixavam em pânico. Isso era potencializado pela pressão, com o fato de que precisava apurar e fechar os textos e dados de artes com agilidade e rapidez. O horário do fechamento tornava-se um inimigo.

A experiência foi uma verdadeira montanha-russa, com altos e baixos, que me transformou em uma repórter muito mais segura, versátil e mais uma vez menos temerosa diante dos desafios. E que venham os próximos! 😀

Ahhhh, economia não é um bicho de sete cabeças. Não dominar um assunto pode tornar o jornalista ainda mais cuidadoso em sua apuração.

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2 respostas em “Jornalista de economia por um mês e 30 furos

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