Ditadura Militar e eu

Giovanna Carvalho tem 14 anos e é estudante de uma escola pública na zona oeste de São Paulo. Depois de algumas aulas sobre a Ditadura Militar, ela mostrou que tem faro jornalístico ao ir atrás de uma história que fez seus olhos brilharem e seu coração palpitar.

Pegou um bloquinho, um gravador e foi para rua. O personagem, um professor de português, foi ex-integrante do MR8 (Movimento Revolucionário Oito de Outubro), pegou em armas, foi preso no Dops e os sofrimentos que passou viraram um processo contra o governo do Estado que já dura 25 anos.

Giovanna enviou a entrevista com o personagem para que eu publicasse neste blog. Veja abaixo: 
 Ditadura Militar

A Ditadura Militar e eu*
Por Giovanna Carvalho
 

Gilmar Pereira da Silva, 52, é professor de Língua Portuguesa e ex-integrante do MR8 (Movimento Revolucionário Oito de Outubro), uma guerrilha que lutava contra a repressão na época da Ditadura Militar no Brasil. Ele relata suas principais lembranças da época, que vai desde sua infância ao ver militares expropriando terras de uma resistência de negros até a sua própria prisão no DOPS (Departamento de Órgão Político Social), onde sofreu danos psicológicos e por este motivo tem um processo em aberto contra o governo do Estado iniciado em 1988.

Veja a entrevista completa abaixo realizada na escola E.M.E.F. Júlio Mesquita, zona oeste de São Paulo.

Quais são as principais lembranças que você teve da Ditadura Militar?

Olha, a principal foi em minha cidade quando eu tinha 12 anos, em Santa Fé do Sul, no interior de São Paulo, em que os militares expulsaram os negros quilombolas de suas terras a margem do rio Paraná. Eu os vi passando pela avenida principal da cidade, em cima de um caminhão, todos algemados. Eu indaguei para minha mãe o que significava aquilo, e ela não me deu respostas. Cheguei à escola, perguntei também, e meus professores não podiam dizer o que era, porque era tudo muito velado, muito escondido. Em seguida eu terminei meus estudos no ginásio, naquela época era ginásio o ensino fundamental, e mudei da cidade, fui morar em Ribeirão Preto para fazer o colegial e foi aí que eu tive contato com alguns professores militantes de esquerda. Eles me esclareceram que aquilo era uma repressão contra uma resistência negra que havia no interior de São Paulo, em virtude que o governo Paulista iria construir a represa de Urubupunga e aquelas terras o Estado as expropriou.  

Por que maio de 1968 ficou conhecido como o ano que não acabou?

Porque começou uma centelha revolucionária no mundo, principalmente na França, que percorreu a América. No Brasil, no caso, foi o início de uma luta que perdura até hoje pelos direitos e pela liberdade. Por isso que teve esse que não acabou, começou ali e até hoje não teve um fim.

Como você vê as ditaduras Latino-Americanas no contexto da Guerra Fria?

Olha, foi uma polarização pós a Segunda Guerra Mundial, em que o mundo capitalista e o mundo socialista polarizaram o resto da América Latina. De um lado os EUA e de outro lado a URSS, por meio de Cuba, que já era socialista.

As manifestações que vem ocorrendo atualmente tem alguma semelhança às manifestações da época da ditadura?

Na época da ditadura a repressão era bem maior e não havia tanta “quebradeira” como existe hoje, era uma coisa mais organizada pelos partidos políticos. E hoje não, me parece que eles não aceitam esse centralismo dos partidos, é uma coisa que beira o anarquismo. 

Você teve algum envolvimento na luta contra a ditadura? 

Tive, eu fui recrutado pelo grupo de esquerda, chamado MR8 (Movimento Revolucionário Oito de Outubro), que era muito forte no movimento estudantil, foi aí que eu tive contato e comecei a participar desse grupo.

E você fez parte em que período?

Eu fiz parte de 1976 a 1984.

Já fez o uso de armas?

Eu… Como era a luta armada, eles ensinavam a manejar armas.

Você, ou algum companheiro já foram presos ou torturados?

 Eu vi vários companheiros sendo presos e mortos, inclusive eu já fui preso, mas não cheguei a ser torturado porque já era em 1979 e já havia luta pela anistia. Fisicamente eu não fui torturado, mas psicologicamente sim, inclusive eu tenho um processo contra o Governo do Estado de São Paulo por esse tempo que eu fiquei detido no DOPS (Departamento de Órgão Político Social).

 E quanto tempo durou sua prisão? 

Uma semana.

E você participava em São Paulo? 

Na cidade de São Paulo e em algumas cidades do interior.

Qual foi a coisa que mais te chocou enquanto você lutava contra a ditadura? 

A morte… De companheiros e companheiras, a tortura de vários amigos e os que sobreviveram tem até hoje sequelas.

O que a população brasileira aprendeu com a ditadura?

A população brasileira, eu não tenho muita clareza o que ela aprendeu, porque se tivesse aprendido nós não estaríamos nessa situação que estamos hoje, politicamente e socialmente.

 E o que você aprendeu com a ditadura?

 Eu aprendi que a liberdade política e de pensamento é o maior bem do ser humano e não defendo ditadura nenhuma, de espécie nenhuma.

* O estilo do texto de Giovanna foi mantido.

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