Dez reportagens de capa e um prêmio de melhor do ano de 2015

Em 1 ano e 15 dias de Vejinha a autora deste blog produziu 10 matérias de capa, outras dezenas de textos e ganhou um prêmio de melhor reportagem do ano de 2015.

Veja São Paulo Aniversário

O mercado do jornalismo está em profunda mutação, mas o que nunca deve mudar é a nossa formidável responsabilidade social, a luta diária p/ trazermos temas relevantes que impulsionem transformações. Faz parte dessa batalha, às vezes intensa e dramática, sair em busca de provar que aquela pauta vale, insistir. Às vezes, os obstáculos são tantos que desistir parece uma saída tão fácil, mas aí você pensa: se eu não lutar por essa história quem é que vai?

Uma vez uma senhora de 60 anos me ligou na redação agradecendo aos prantos a reportagem sobre a transexualidade em crianças e adolescentes e disse que aquilo havia mudado a sua vida. A família não sabia o que fazer com o neto de 9 anos, que escondia de todos. Choramos juntas ao telefone. Em outra precisou-se de uma história como a da Loemy, que virou um símbolo da luta contra as drogas, para que a cracolândia fosse vista de outra forma pelo público comum. E, numa nova oportunidade, voltamos a discutir as políticas públicas sobre o tema drogas em outra reportagem de capa sobre o programa do governo municipal chamado Braços Abertos..

Para complementar a trajetória, abaixo a última capa do ano em que trabalhei.

Ele já fez mais de 600 abortos: a incrível rotina do obstetra Jefferson Drezett, médico do hospital paulistano Pérola Byington, campeão no país em interrupções de gravidez previstas em lei em vítimas de violência sexual.

Entre os casos retratados estão da empregada doméstica Alessandra, 32, da boliviana Paloma, 19, e da adolescente Maria de apenas 14 anos: a primeira estuprada por um homem armado quando saía do trabalho, a segunda levada para dentro de um carro com dois brasileiros no Brás, a terceira violentada pelo próprio padrasto quando a mãe saía para trabalhar. As três ficaram grávidas de seus agressores.

Veja São Paulo O obstetra Jefferson Drezett 600 abortos

Há três anos, quando lancei meu livro “London Calling – Histórias de Brasileiros em Londres” (Giostri/2012) no ano seguinte a minha formatura, escrevi na orelha que a “curiosidade, persistência e inconformidade” me levaram a realização daquele trabalho e são essas características que continuam mantendo a profissão acesa dentro de mim.

Há 10 anos o mineiro Jean Charles era morto pela polícia de Londres

Foto: Juliana Farias

Dona Maria Otoni, mãe de Jean Charles de Menezes. Foto por Juliana Farias (Julho/2011)

No dia 22 de julho de 2005, o motoboy Alex Pereira estava em uma escola de inglês em Londres quando a professora ligou a televisão e o noticiário dizia: “Homem-bomba é morto na estação de Stockwell”.

Ele e a família só foram avisados quase 30 horas depois que tratava-se do primo, o mineiro Jean Charles de Menezes, de 27 anos, morto pela polícia com 7 tiros na cabeça e 1 no ombro. Ninguém foi responsabilizado pelo crime. Ele e os familiares foram levados para um hotel em Kingston, onde os telefones foram desligados e eles ficaram sob vigilância.

Em 2011 eu desembarcava em Gonzaga, interior de Minas, para contar a história dos primos para o livro London Calling – Histórias de Brasileiros em Londres, publicado no ano seguinte.

Cheguei na cidade e a placa dizia: “Aqui, priorizamos a vida. Terra de Jean Charles, vítima do terrorismo em Londres”. Acima, na foto de Juliana Farias, a mãe de Jean, dona Maria.

Chamo-me Carolina, farei 20 anos e seu livro mudou a minha vida

London Calling - histórias de brasileiros em Londres

London Calling – histórias de brasileiros em Londres

Recebi o e-mail abaixo em fevereiro de 2014 referente a experiência de uma leitora com o meu livro sobre brasileiros em Londres, mas só agora resolvi compartilhá-lo. O e-mail me veio à tona com a ativação deste blog (estava oculto desde o final de março), pois demonstra como o nosso trabalho, de escritor de jornalista, pode interferir tão intensamente na vida de alguém. É a prova mais especial de que alcancei o objetivo da publicação.

Me chamo Carolina (troquei o nome para evitar qualquer identificação a ela), farei 20 anos em março e seu livro acaba de mudar a minha vida. Ainda não terminei de lê-lo, têm dois dias que comecei e estou devorando-o.

Faço letras numa Universidade Federal do Rio de Janeiro e só agora consegui enxergar o quanto minha vida estava caminhando para o abismo. Sentia um profundo vazio, uma tristeza profunda. Minha vida não tinha sentido algum.
 
Tive uma infância difícil, vários problemas com meu pai. Nunca superei. Há alguns meses, fui vítima de estupro; o que só agravou ainda mais meu estado emocional.
 
Resolvi sair do Brasil, vou fazer mais dois semestres na faculdade e ano que vem, vou para a Inglaterra. Obrigada, Adriana. Obrigada mesmo. Obrigada pelo impulso, pelo auxílio e pela injeção de coragem.
 
Obrigada por ter escrito o livro. Agradeça à Sandra e aos gêmeos, e ao Rômulo (que é até onde li até agora) por mim também (esses são alguns dos personagens reais do livro). E sinta-se ternamente abraçada.
 
Espero que leia esse e-mail e que saiba que você, com suas experiências, mudou a vida de alguém. Gratidão eterna

Respondi ao e-mail da Carolina, mas nunca obtive retorno.

Duas declarações de amor

A minha alma gêmea é um espelho que chama a atenção para mim mesma. Ela me ajuda a quebrar as paredes, a enxergar o que eu insisto em não ver, a socar o mundo, a estilhaçar os vidros e a ter coragem de arriscar sempre. Se for preciso, ela me vem com chacoalhões e tapas na cara para que eu cresça, aprenda e sonhe menos e faça mais.

A minha alma gêmea me ensinou a trilhar a minha própria história quando ninguém mais acreditava em mim nem eu mesma. Foi quem me ajudou a encarar o desconhecido, o frio, o desabrigo.

A minha alma gêmea me levou para o velho mundo e à terra dos inconfidentes. Fomos buscar experiências autênticas, um compromisso que nos transformou irreversivelmente. Suas fotografias deram vida as minhas palavras, que viraram livro.

Ela tem alma de artista, mas trabalha com números. A minha alma gêmea se chama Juliana Farias e hoje dia 9 de agosto é aniversário dela, quer dizer, nosso aniversário. O primeiro em 25 anos que passamos separadas.

Feliz aniversário! Te amo demais!

E diretamente de Londres eis que a minha irmã gêmea me retribui com este vídeo emocionante:

Produto inglês somente para as mulheres

Em meados de 2009, Ellen Costa saia do curso de inglês em direção a sua casa, a caminho de Cristal Palace, região ao sul de Londres. Ao descer na estação Brixton do metrô ela viu algumas pessoas com sacolinhas distribuindo algo. Ellen nem se importou. “Deveria ser algum folheto de propaganda”, pensou.

Seguindo a passos firmes, eis que ela escuta: “only for women” (somente para mulheres) e o tal do produto estava sendo retirado só por mulheres, de todas as idades. Curiosa, ela  apenas estendeu a mão e a pessoa entregou uma daquelas sacolas e ela seguiu caminho, amarrotando a mercadoria no bolso.

Em casa, ela abriu o produto e leu atentamente a descrição. Era um aparelho de segurança pessoal para mulheres. Ele dispara um barulho ensurdecedor e uma luz que deve ser usada de forma intermitente em casos de perigo. Ellen, que é minha colega de trabalho na editoria “Ilustríssima”, da Folha de S.Paulo, fez um breve teste do produto na redação. Ainda bem que era horário de almoço e poucas pessoas estavam por perto. Realmente um produto bem curioso. Será que pegaria em São Paulo?

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“Aquela área ali de Brixton é muito perigosa, por isso que aparelhos como esse fazem sucesso”, disse ela que nunca fez uso do produto em situações reais de perigo. Se eu soubesse que era um negócio tão legal eu tinha é trazido mais para o Brasil para distribuir para as amigas como lembrancinha“, brincou.

Lembro de uma vez que sai a noite para um encontro entre colegas do curso de inglês e me vi sendo seguida por um homem próximo, se não me engano, da região de Kilburn, noroeste de Londres. Ele se dizia taxista e me oferecia uma corrida. Eu agradeci e disse que não precisava. No entanto, ele continuou a me seguir. Eu apertei os passos, olhei discretamente para trás e atravessei a rua. Ele continuava a me seguir e quando chegou bem próximo me pediu um isqueiro. Eu disse que não tinha porque não fumava.

Ao avistar o ponto de ônibus me senti aliviada. Iria pegar um daqueles famosos night bus (ônibus que funcionam 24h). Em segundos, a minha sensação de alívio se transformou em pânico. No local havia apenas uma pessoa e boa parte do comércio estava fechada, o que deixava as ruas ainda mais escuras e o suposto taxista ainda me rondava. Decidi que pegaria o primeiro ônibus que aparecesse mesmo que ele me levasse para um caminho oposto do que eu deveria ir.

No ponto, o homem tirou do bolso um crachá que mostrava que ele era taxista e vi que ele era do Afeganistão. Não vou dizer que saber da nacionalidade dele não me abalou porque eu seria hipócrita. Aquilo me assustou profundamente e ele poderia ser algum radical islâmico querendo se vingar de algo, sei lá. Mil coisas vieram a minha cabeça. Ele pediu meu número de celular, eu disse que não daria, mas ele insistiu dizendo que se eu desse ele não me incomodaria mais. Eu aceitei o acordo, e passei meu número para ele. No mesmo momento um ônibus acabara de estacionar e subi quase que sem fôlego. No dia seguinte comprei um novo chip para o celular e guardei o número antigo para casos excepcionais. Nunca mais vi aquele homem e ele não tentou me ligar.

Londres é sim uma cidade livre e que você consegue andar na rua a noite sem a sensação constante de medo, muito mais do que aqui em São Paulo. A questão é que pessoas ruins estão em todos os lugares e não dá para descuidar e achar que o primeiro mundo é um lugar perfeito. Já passei muitos momentos de sensação total de segurança e outros de muito medo em Londres. Isso é potencializado pelo fato de sermos mulheres, sempre a primeira vítima da violência, da covardia e do machismo.

Ilustríssima: uma relação de amor e ódio

Tive a oportunidade de trabalhar em esquema de cobertura de férias na Ilustríssima, que é o caderno dominical da Folha de S.Paulo.Quem conhece o suplemento sabe que ele é aberto à discussão de grandes temas da cultura no Brasil e no mundo.

Quando contei a colegas e amigos que estava no suplemento as reações se resumiram a duas principais: “Nossa, esse caderno é genial!” e “Jura? Como é que você consegue entender esse caderno?”

Ilustríssima 18.12.12 Ilustríssima 25.12.12Ilustríssima 02.12.12 Ilustríssima 09.12.12

Sempre fui apaixonada pela Ilustríssima por ela trazer grandes reportagens recuperando o New Journalism (NJ), a junção da literatura com o jornalismo. Aliás, foi esse gênero jornalístico que norteou toda a narrativa do meu livro, o “London Calling“.

O NJ surgiu nos Estados Unidos nos anos 60 com nomes como Tom Wolfe, Gay Talese e Truman Capote, principalmente com o livro “A Sangue Frio”. É a junção das diretrizes do jornalismo, com o registro minucioso de gestos do personagem da pauta; descrição de costumes e hábitos, detalhamento na caracterização e construção das cenas narradas entre outros pontos fundamentais.

É importante detalhar como esse gênero jornalístico surgiu bem nos anos 60. Época de trânsitos comportamentais, agitação hippie, o rock dos Beatles e dos Stones com seus cabelos compridos, a luta pelos direitos civis, surgimento da minissaia deixando os mais conversadores de boca torta… Os escritores/jornalistas se viram obrigados a narrar esses temas efervescentes de uma forma que ultrapasasse os limites convencionais do fazer jornalístico da época.

No Brasil nós tivemos a revista Realidade (1966) que trouxe a sedução da literatura para o texto jornalístico. Mas quem colocou uma pedra nessa harmonização foi a internet, que exigiu do jornalismo uma adaptação nunca antes imaginada. Com textos rápidos, enxutos, às vezes com uma apuração mal acabada.

Fiz esse parenteses do New Journalism para explicar melhor a Ilustríssima, que para mim chega até a ser um alívio poder contar com essa publicação dentro de tanta reportagem rasa que perpassa a mídia jornalística.

Um dos exemplos de textos corpulentos que demos foi sobre a rivalidade Clarín X Kirchner. A reportagem/entrevista trouxe uma nova versão dos fatos tirando o maniqueísmo que a imprensa brasileira implantou entre os dois. Outra muito boa questiona o tráfico de mulheres no exterior, pauta que veio à tona com a novela Salve Jorge, da Globo.

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É claro que os textos longos do suplemento assustam (alguns podem chegar até a 18 mil caracteres), ainda mais para nós mortais acostumados com textos de no máximo 2 mil caracteres ou com as reportagens de telejornal com seus 3 minutos de duração.

Palavras rebuscadas e temas mais elitistas também podem afastar o leitor comum da Folha. Algumas vezes me peguei criticando e até tachando de absurdo alguns textos e pautas do suplemento. Em alguns tive que parar várias vezes a leitura da reportagem para buscar no dicionário uma tal palavra que o autor usou, mas até que ponto isso é positivo ou negativo? Isso me levou a incorporar no meu vocabulário uma palavra nova, difícil e que eu nunca usaria, mas não deixa de ser algo novo.

É realmente uma questão de amor e ódio, mas para mim é mais de amor, principalmente pelas grandes reportagens sumidas do nosso jornalismo de papel! E você já teve a oportunidade de ler o caderno? O que achou?

Vídeo da entrevista exibida na TV Cultura sobre ‘London Calling’

No último sábado (8), o programa 360 da TV Cultura exibiu uma entrevista comigo a respeito do “London Calling – histórias de brasileiros em Londres”, livro que lancei no Teatro Augusta e na 22ª Bienal de São Paulo em agosto deste ano.

ENTREVISTA TV CULTURA 1.3

Dos quase 30 minutos de entrevista, a equipe da TV PUC, que realizou a reportagem, soube condensar bem o tópicos mais importantes. Acho que vale destacar um ponto que é sempre o gancho da conversa de estudantes de Jornalismo que me procuram via e-mail e facebook: o TCC (Trabalho de Conclusão de Curso).

Como não deixar ele engavetado depois que você recebe o diploma? O fato é que fazendo um tema verdadeiro e instigante –não apenas para os outros, mas principalmente para você– vai te levar a encontrar meios de tirá-lo do acadêmico e transformá-lo em profissional, mesmo nadando contra a maré.

O vídeo já está disponível no meu youtube channel:

E aí o que acharam?