Entrevista sobre “London Calling” no blog do jornalista do UOL

Nesta semana dei uma entrevista super bacana ao jornalista do portal UOL Rodrigo Borges Delfim. A primeira parte do nosso bate-papo foi publicada no novíssimo blog do jornalista, o MigraMundo, que aborda temas ligados a migração, dentro ou fora do Brasil.

Conversamos sobre o meu primeiro livro “London Calling – histórias de brasileiros em Londres” que lancei no mês de agosto deste ano no Teatro Augusta e na 22ª Bienal Internacional do Livro.

Reproduzo aqui um trecho do post do Rodrigo:

De onde veio a ideia de transformar a experiência na Terra da Rainha em TCC e, depois, em livro? O que te inspirou?
A viagem para Londres foi a minha primeira experiência internacional, então fui com dois olhares, o de jornalista e o de criança, puro e sempre de olho em tudo sem deixar escapar nada. Lá, eu passei a conviver com muitos estrangeiros, mas as histórias dos brasileiros que moravam lá me fascinavam e me horrorizavam também. Cheguei no Brasil completamente transformada e inspirada por essa experiência. A princípio, o meu TCC seria em dupla e com outro tema, mas numa certa noite eu comecei a ler o livro “Da Rosa ao Pó”, do jornalista Gustavo Silva, sobre as histórias que ele descobriu do pós-genocídio na Bósnia. E percebi que o que eu vivi em Londres com os brasileiros que eu encontrei poderia virar o meu TCC, em formato de livro. Eram 4h da manhã quando levantei da cama e mandei um e-mail para o meu orientador perguntando se ele concordava com a ideia de mudar de tema aos 45 minutos do segundo tempo. Com a resposta afirmativa dele eu não tive dúvidas, desmanchei a minha dupla e parti para a empreitada. Uma vez escutei de um grande jornalista que a nossa profissão deve exercer a humanidade, ou seja, o repórter deve estar disposto a sair da sua zona de conforto e enfrentar as adversidades, ouvir o outro, o inusitado e o diferente. Juntei isso com a minha admiração pelo New Journalism, que é a junção da narrativa jornalística com a literatura, e entrei no calor psicológico dos meus personagens.

O que mudou no decorrer do TCC e no percurso até a obra chegar às livrarias?
O Ziraldo, pai do menino maluquinho, disse uma vez que você nunca será um grande escritor se não for ambicioso e corajoso. Isso é uma grande verdade. Comecei o meu TCC já com a intenção de que ele poderia virar um livro comerciável. É claro que algumas coisas foram me decepcionando no meio do caminho, como alguns bons personagens que não queriam participar, conciliar o trabalho com a produção do TCC, problemas técnicos com ele, entre outros. Mas eu estava muito confiante e apaixonada pelo tema, que eu havia vivenciado. E por que não lançar um livro de brasileiros em Londres, que é uma cidade tão impregnada no imaginário popular?

Aproveitando uma pergunta que você fez aos entrevistados para o livro: Para você o que Londres é e o que Londres não é?
Para mim Londres é vida! É a possibilidade de você conhecer o mundo todo em apenas um lugar onde a diversidade cultural impera. Poxa, é o país do punk que questionou a pompa da sociedade britânica, quebrou paradigmas e trouxe uma nova forma de encarar a música, como peça chave para entender as angústias do povo. E para mim Londres não é um país onde as coisas caem do céu, onde tudo é maravilhoso e nada dá errado. Aquele famoso ônibus vermelho de dois andares pode estar impregnado de preconceito e xenofobia.

O que você sentiu ao voltar para o Brasil? Houve algum tipo de choque?
Sim! Fiquei menos de um semestre, infelizmente. Quando voltei foi inevitável fazer as comparações sobre a nossa mobilidade urbana e a deles, o hábito dos ingleses de ler no metrô, mas foi muito bom ter voltado e ter aprendido a dar mais valor para a nossa cidade e o que está ao nosso redor. Uma coisa muito legal é que alguns dos personagens do meu livro que voltaram ao Brasil souberam disseminar e contagiar os colegas de trabalho, família e amigos com as experiências que tiveram em Londres. Muitos deles estão hoje ajudando a construir uma cidade melhor a partir do que aprenderam lá fora. Isso teria valido um capítulo extra ao meu livro, mas não deu.

Que tipo de retorno você tem recebido do livro London Calling, seja por parte dos leitores, seja em relação aos personagens?
Muitas pessoas leram o livro em 2 dias! O retorno têm sido muito positivo e, para falar a verdade, emocionante! Quando um leitor me escreve dizendo que o livro o inspirou a ter uma vida mais criativa e engajada eu fico muito contente, porque a intenção era essa mesma. Tirar as pessoas do comodismo e mostrar que existe um mundo lá fora a espera delas e que não é impossível sair do país; ou mesmo sair de São Paulo e ir conhecer a zona leste, ou até ir ver aquele museu que fica do lado da sua casa.

Você saberia traçar um “antes e depois” de si própria, sobre como você era antes da sua experiência em Londres e como voltou da viagem?
A conclusão do livro é exatamente o antes e o depois não só de mim, mas de todos os personagens da obra. Londres me ajudou a enxergar um outro Brasil. A busca de experiências autênticas foi um compromisso que me transformou irreversivelmente e fez surgir uma nova versão de mim mesma. Parei de ler as histórias dos outros e fui trilhar a minha própria.

(Leia a entrevista completa no blog MigraMundo)

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Escritora de primeira viagem na 22ª Bienal de SP

O mais interessante de se lançar um livro é o tipo de receptividade que ele pode ter de públicos diferentes.

Depois de lançar o “London Calling” no Teatro Augusta para familiares, amigos de infância, colegas de trabalho e professores, foi só na 22ª Bienal do Livro que eu realmente vi o impacto e o tipo de público que ele agradaria.

O mais bacana foi o interesse de duas meninas adolescentes que queriam dar a volta ao mundo de bicicleta e viram no meu trabalho uma forma de realizar esse sonho. Não demorou muito e apareceu um pai que se interessou no livro e levou para a filha de 15 anos, que fará um intercâmbio na Áustria para aprender alemão. Dois rapazes mais velhos também se interessaram pela temática porque planejam uma grande viagem para a Europa e pensaram em Londres como ponto de partida. Uma moça, aparentando ter seus 30 anos, amontoada de sacolas e falando ao celular, seguiu em direção ao meu livro, agachou, leu o título com um pouco de dificuldade e disse: “A ligação ta ruim, óh, presta atenção, ta me ouvindo? Tô com um livro aqui ‘London Calling’, parece que é de brasileiros em Londres”. A ligação caiu, ela saiu correndo segurando as sacolas e não levou o livro, mas me deu um leve sorriso me parabenizando sem precisar dizer uma palavra.

Esses dias eu estava conversando com a minha irmã sobre a simplicidade do meu livro, que eu poderia vender poucos, mas se trouxesse algum tipo de mudança para pessoa que lesse eu já estaria realizada. E, na verdade, eu já estou realizada mesmo porque consegui que uma amiga da faculdade, e também ex-colega de trabalho, quebrasse o cadeado da sua caixinha de ferro e saísse da sua zona de conforto. Ela  viajou para Londres sem falar inglês, com todo o dinheiro economizado (porque vida de jornalista não é fácil) e ainda se aventurou por outras cidades europeias até chegar em Paris, onde se hospedou, para sua surpresa, num quarto de hotel vagabundo que não tinha nem chuveiro para tomar banho.

E você? Já teve alguma experiência nesse sentido?