Duas declarações de amor

A minha alma gêmea é um espelho que chama a atenção para mim mesma. Ela me ajuda a quebrar as paredes, a enxergar o que eu insisto em não ver, a socar o mundo, a estilhaçar os vidros e a ter coragem de arriscar sempre. Se for preciso, ela me vem com chacoalhões e tapas na cara para que eu cresça, aprenda e sonhe menos e faça mais.

A minha alma gêmea me ensinou a trilhar a minha própria história quando ninguém mais acreditava em mim nem eu mesma. Foi quem me ajudou a encarar o desconhecido, o frio, o desabrigo.

A minha alma gêmea me levou para o velho mundo e à terra dos inconfidentes. Fomos buscar experiências autênticas, um compromisso que nos transformou irreversivelmente. Suas fotografias deram vida as minhas palavras, que viraram livro.

Ela tem alma de artista, mas trabalha com números. A minha alma gêmea se chama Juliana Farias e hoje dia 9 de agosto é aniversário dela, quer dizer, nosso aniversário. O primeiro em 25 anos que passamos separadas.

Feliz aniversário! Te amo demais!

E diretamente de Londres eis que a minha irmã gêmea me retribui com este vídeo emocionante:

Produto inglês somente para as mulheres

Em meados de 2009, Ellen Costa saia do curso de inglês em direção a sua casa, a caminho de Cristal Palace, região ao sul de Londres. Ao descer na estação Brixton do metrô ela viu algumas pessoas com sacolinhas distribuindo algo. Ellen nem se importou. “Deveria ser algum folheto de propaganda”, pensou.

Seguindo a passos firmes, eis que ela escuta: “only for women” (somente para mulheres) e o tal do produto estava sendo retirado só por mulheres, de todas as idades. Curiosa, ela  apenas estendeu a mão e a pessoa entregou uma daquelas sacolas e ela seguiu caminho, amarrotando a mercadoria no bolso.

Em casa, ela abriu o produto e leu atentamente a descrição. Era um aparelho de segurança pessoal para mulheres. Ele dispara um barulho ensurdecedor e uma luz que deve ser usada de forma intermitente em casos de perigo. Ellen, que é minha colega de trabalho na editoria “Ilustríssima”, da Folha de S.Paulo, fez um breve teste do produto na redação. Ainda bem que era horário de almoço e poucas pessoas estavam por perto. Realmente um produto bem curioso. Será que pegaria em São Paulo?

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“Aquela área ali de Brixton é muito perigosa, por isso que aparelhos como esse fazem sucesso”, disse ela que nunca fez uso do produto em situações reais de perigo. Se eu soubesse que era um negócio tão legal eu tinha é trazido mais para o Brasil para distribuir para as amigas como lembrancinha“, brincou.

Lembro de uma vez que sai a noite para um encontro entre colegas do curso de inglês e me vi sendo seguida por um homem próximo, se não me engano, da região de Kilburn, noroeste de Londres. Ele se dizia taxista e me oferecia uma corrida. Eu agradeci e disse que não precisava. No entanto, ele continuou a me seguir. Eu apertei os passos, olhei discretamente para trás e atravessei a rua. Ele continuava a me seguir e quando chegou bem próximo me pediu um isqueiro. Eu disse que não tinha porque não fumava.

Ao avistar o ponto de ônibus me senti aliviada. Iria pegar um daqueles famosos night bus (ônibus que funcionam 24h). Em segundos, a minha sensação de alívio se transformou em pânico. No local havia apenas uma pessoa e boa parte do comércio estava fechada, o que deixava as ruas ainda mais escuras e o suposto taxista ainda me rondava. Decidi que pegaria o primeiro ônibus que aparecesse mesmo que ele me levasse para um caminho oposto do que eu deveria ir.

No ponto, o homem tirou do bolso um crachá que mostrava que ele era taxista e vi que ele era do Afeganistão. Não vou dizer que saber da nacionalidade dele não me abalou porque eu seria hipócrita. Aquilo me assustou profundamente e ele poderia ser algum radical islâmico querendo se vingar de algo, sei lá. Mil coisas vieram a minha cabeça. Ele pediu meu número de celular, eu disse que não daria, mas ele insistiu dizendo que se eu desse ele não me incomodaria mais. Eu aceitei o acordo, e passei meu número para ele. No mesmo momento um ônibus acabara de estacionar e subi quase que sem fôlego. No dia seguinte comprei um novo chip para o celular e guardei o número antigo para casos excepcionais. Nunca mais vi aquele homem e ele não tentou me ligar.

Londres é sim uma cidade livre e que você consegue andar na rua a noite sem a sensação constante de medo, muito mais do que aqui em São Paulo. A questão é que pessoas ruins estão em todos os lugares e não dá para descuidar e achar que o primeiro mundo é um lugar perfeito. Já passei muitos momentos de sensação total de segurança e outros de muito medo em Londres. Isso é potencializado pelo fato de sermos mulheres, sempre a primeira vítima da violência, da covardia e do machismo.