Jornalismo e as redes sociais

Manifestante ergue flores na av. Paulista, centro, durante protesto no dia 17 de junho contra o aumento das tarifas do transporte público em São Paulo (Foto: Flavio Sganzerla)

As redes sociais nos ajudaram a entender o que se passava pelas ruas nos grandes protestos que tomaram o país com um olhar único dos manifestantes, das pessoas anônimas, comuns. Uma percepção que ia além do que a mídia tradicional vinha mostrando.

Mas a grande discussão que nós obrigatoriamente levantamos, enquanto jornalistas, era a disseminação de mentiras, falsidades, boatos por usuários e por grupos que estavam promovendo o terrorismo na população.

Cheguei a entrevistar um manifestante que se dizia agredido nas redes sociais, o compartilhamento da postagem dele chegou a 8 mil. Descobrimos que era mentira. Nem boletim de ocorrência que ele disse que ia fazer ele fez quando descobrimos a falsidade.

Em outra ocasião, na época da venda dos ingressos do Rock in Rio, estava apurando uma pauta sobre superfaturamento de ingressos nas redes sociais após um post que chegou a 20 mil compartilhamentos de uma pessoa denunciando um usuário pelo crime de cambismo on-line. Ao fim da apuração descobri que o perfil era fake e que o tal usuário, na verdade, estava querendo chamar a atenção e ganhar notoriedade nas redes sociais. Ele queria que a imprensa legitimasse seu perfil, sendo que tudo não passou de uma “brincadeira”.

Segundo reportagem divulgada na Folha nesta quinta-feira (4), com o título “Jornalismo domina rede social durante protestos pelo país“, entre os papeis da imprensa durante o protesto foi o de validar ou desmentir informações desencontradas disseminadas por usuários das redes.

Outra informação que eu e outra colega jornalista apuramos durante os protestos e que foi compartilhada desenfreadamente pelas redes sociais foi sobre a desocupação do Theatro Municipal no protesto do dia 13 para a suposta “infiltração de policiais militares” que iriam “pegar os manifestantes desprevenidos”. Apuramos in loco que, na verdade, apenas estudantes de um curso de dança haviam sido liberados e que o Theatro funcionava normalmente, sem nenhum “militar infiltrado”.

E mais, segundo reportagem da Folha:

De um falso Jô Soares anunciando duas mortes em uma manifestação, no Facebook, ao alerta geral sobre um golpe militar, no Twitter, os boatos se espalharam sem controle naquele período.

Outro boato dizia que a presidente Dilma Rousseff havia declarado que desligaria a internet se as manifestações prosseguissem. A origem deste último foi identificada em sites de humor.

Mas os demais se perdem no emaranhado de versões que acabaram recebendo guarida em perfis do Facebook e contas do Twitter.

Um deles dizia que um dos depredadores da sede da Prefeitura de São Paulo seria a mesma pessoa que rasgou as cédulas de jurados na apuração do Carnaval de 2012, Tiago Ciro Tadeu Faria.

Na realidade o agressor era o estudante de arquitetura Pierre Ramon Alves de Oliveira, como revelou a imprensa.

“Você vai descascando, descascando, e é como telefone sem fio: lá atrás era outra coisa”, afirma Leonardo Sakamoto, professor de jornalismo da PUC-SP. Ele chegou a postar em seu blog no UOL, empresa do Grupo Folha, que edita a Folha, “os dez mandamentos para jornalista de Facebook e Twitter”. O primeiro é “não divulgarás notícia sem antes checar a fonte de informação”.

Se o tal “jornalista das redes sociais” pública uma informação correta ele é louvado e o jornalismo participativo surge como uma boa sacada para a iniciativa empresarial. Se ele distorce a informação, as grandes corporações afirmam que ele não deve agir como jornalista e, portanto, é um indivíduo despreparado. É um papel ambivalente de aceitar ou não sua importância.

Além do mais, esse tipo de jornalismo traz fascínio ao imaginário do cidadão comum e surge uma proliferação de “cidadãos-paparazzi” querendo publicar tudo o que vêem pela frente.

O jornalismo tradicional não deve se dissociar das redes sociais, mas usá-las criteriosamente para entender os anseios da população.

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O jornalismo se curva

O fotojornalista alemão Maxim Sergienko publicou em dezembro esta ambígua foto que mostra a equipe da versão alemã do jornal Financial Times se despedindo de seus leitores, após o anúncio do fim da circulação do diário. Cerca de 256 jornalistas foram dispensados. A foto poderia ter sido tirada aqui no Brasil.

Foto: Maxim Sergienko

Foto: Maxim Sergienko

A foto traz duas interpretações, assim como a tradução de “entschuldigung”: uma despedida humilde a quem o jornalismo de qualidade mais deve respeito: ao cidadão e a democracia; e outra mais macabra a equipe se curva para receber a foice, em alusão a perda do emprego, o decreto do fim do jornalismo.

Adotei a primeira interpretação, mais romântica, pode ser. O jornalismo bom, de qualidade, independente e investigativo serve de parâmetro para analisarmos o quão democrático é um país. A curva da equipe do FT alemão é uma despedida nesse sentido. É você, leitor-cidadão, que sai perdendo.

A profissão está passando por uma travessia turbulenta frente à internet. Folha, Estadão, Valor, Abril, Brasil Econômico, Trip, Record… todos vão fazer ou estão para fazer reestruturações em suas redações, com cortes de vagas e extinção de cadernos. O novo modelo que se impõe é o de redações mais enxutas.

Aqui vai uma discussão que vale a pena ser feita. Está no blog “Casca de Besouro”, de Bruno Torturra. Clique aqui e vamos debater o nosso futuro. O encontro foi transferido para esta quinta-feira (13), no centro de São Paulo. Mais informações diretamente com o organizador ou comigo no Facebook.

Como conversas de bar podem virar pauta

Já escrevi aqui, num post de novembro, como as pautas podem surgir de situações que você não espera. Uma conversa num bar pode levar a uma pauta, algo que te deixe inquieto ou indignado pode ser um sinal.

Seguindo para a rodoviária às 9h da noite e você vê uma movimentação estranha no trânsito fique atento, pergunte o que é… pode não ser nada ou pode ser uma pessoa sendo assaltada (exemplo verídico aqui). É a nossa profissão, temos que ser observadores, curiosos e questionadores, se um dia perdermos essas qualidades estará na hora de mudarmos de profissão.

Foi em uma dessas conversas de bar que surgiu a ideia de publicar o artigo 89 FM x KISS FM: na disputa pelo público rock paulista. Eu acompanhei o retorno da rádio rock e a mobilização feita pelos fãs na página do grupo no Facebook. Percebi que eu tinha um tema bacana para debater já que também acompanho há muitos anos a concorrente KISS FM. As duas rádios estão disputando a preferência do público que gosta de rock na capital, mas elas vão ter que se reinventar para não perder audiência. Ninguém tinha escrito sobre isso e estava na boca do público… lá fui eu.

O artigo foi publicado neste blog e no Whiplash.Net, portal que escrevo há uns 8 anos. O texto chegou a mais de 1 mil compartilhamentos no Facebook, quase 10 mil visualizações e recebeu centenas de comentários construtivos.

Um editor d’O Estado de S.Paulo gostou e republicou o artigo ontem no blog de música do jornal, o Combate Rock. O texto lá já foi compartilhado mais de 370 vezes.

Isso é para comprovar que quando acreditamos que a pauta é boa a gente tem que ir até o fim, mesmo que digam o contrário, como me disseram em outro lugar que não vale a pena comentar aqui! É coisa de feeling! Rock on!

Quando uma pauta cruza o caminho do repórter

A sessão das 21h do filme de terror “A Entidade” estava lotada no último dia 4 em uma das salas do Cinemark do shopping SP Market.

As cenas aterrorizantes me fizeram pegar a jaqueta do meu namorado para usar como cobertor para tapar os olhos. Dizem que quando a pessoa esta apavorada e usa algo para cobrir o corpo até a nuca uma camada de proteção se forma e nenhum mal pode acontecer =). Foi assim que eu fiquei quase o filme inteiro, me contorcendo de um lado a outro diante das cenas fortíssimas de pessoas sendo esquartejadas, degoladas e afogadas. Veja só:

Eis que um barulho vindo de uma das fileiras da frente toma a nossa atenção. Uma criança estava na sala assistindo o mesmo filme. A indignação não poderia ser maior. Muito mais do que atrapalhar quem estava compenetrado no filme, aquela criança não poderia estar ali vendo aquelas cenas fortíssimas. A classificação indicativa do filme era de 14 anos.

Depois de observar o comportamento da criança em boa parte do filme, eu saí da sala inquieta. Não sabia até que ponto uma criança pequena, a princípio parecia ter 4 anos, poderia ser afetada por aquelas cenas. Pronto! Meus instintos jornalísticos vieram à tona. Eu tinha uma pauta!

Com respeito e delicadeza, perguntei a mãe daquela criança como ela tinha conseguido entrar no cinema. Ela respondeu que simplesmente passou sem ser barrada. Também perguntei a idade da criança. O menino fofíssimo tinha 2 anos. Quando mal terminei de perguntar o motivo que ela tinha trazido a criança para ver um filme tão forte… a mãe desviou o assunto e se dirigiu ao caixa do estacionamento.

Sai com a sensação de que tinha uma boa pauta! Para ter certeza da minha intuição fui em busca dos departamentos de psicologia da USP e da PUC-SP. Eles me encaminharam para duas especialistas na área de criança, uma delas, inclusive, vem estudando o impacto da televisão nos pequenos. As duas profissionais classificaram a situação como “grave”.

Entrei em contato com o Cinemark e com o Ministério da Justiça, que é responsável por fazer a classificação dos filmes.

Depois de toda a apuração, tive 100% de certeza que realmente eu tinha uma boa pauta no sentido não de criminalizar ninguém, mas de passar a informação aos pais que em muitos casos, por falta de informação, não sabem que uma criança de 2 anos pode sim ser influenciada pelo que vivencia, pelo que vê na televisão ou no cinema. “É uma discussão que pouco se faz no Brasil”, disse uma das especialistas.

Levei a pauta com convicção para o chefe de reportagem…

Saiu! Está em Coti, que é como chamamos carinhosamente a editoria Cotidiano da Folha. Dá para ler clicando aqui.

Às vezes, as pautas surgem em situações que você não espera. Uma conversa num happy hour pode te levar a uma pauta, algo que te deixe inquieto ou o indignado pode ser um sinal. Seguindo para o trabalho às 7h da manhã e você vê um trânsito atípico para o horário fique atento, pergunte o que é… pode ser um tráfego intenso por excesso de veículos mesmo ou pode ser um acidente (exemplo verídico aqui). É a nossa profissão, temos que ser observadores, curiosos e questionadores, se um dia perdermos essas qualidades estará na hora de mudarmos de profissão.